“Preciso dizer…Você faz muita falta
“Não resmungou nem gemeu nem bateu com os pés. Simplesmente engoliu a decepção e optou por um riso calculado - um presente dela para si mesma.
“Já me perguntaram algumas vezes: o que eu faço? E eu digo: não faz nada. Não precisa se montar, decorar um texto, falar pausadamente na frente do espelho, ensaiar a cena, viajar em busca da palavra perfeita. A gente tem que ser a gente. Eu tenho que ser eu. Você tem que ser você. Por mais estranho, maluco, curioso e engraçado que isso seja.
“Eu chorava e não entendia, apenas não entendia, e não entender dói, e a dor fazia com que eu chorasse. Eu sentia saudade, uma saudade apertada da gente, principalmente da gente.
“Você sabe que nunca foi fácil deixar você partir. Libertar o teu encalço preso à sola do meu sapato, desbravar com as mãos trêmulas o teu cabelo cheio e negro, e depois fingir que esse vazio entre os dedos esguios e pálidos era mera origem do inverno. E hoje, com o peso de uma tempestade de rosas desabando sobre a minha cabeça, eu expus em voz alta a minha incisiva decisão. Não há volta, querido. Não posso ser mais sua do que minha. Ou mais desse passado do que o presente, que arranha a porta e me pede ordem constante. Tem alguém me esperando, pedindo que eu vá, que eu me entregue. Farei, sem culpa ou pedido de desculpas. Sem essa insistência em lhe dizer o que me sufocou. Sem querer conversar uma última vez, pôr um fim naquele palácio de horrores que nos algemou no fundo do mar. Devo coordenar as passeatas, os silêncios, os lugares e os horários. Devo explicar o que há de errado com a lua e o que há de eterno na morte. Posso ser um castelo de cartas, onde cada uma irá reservar um pedaço teu, não mais o baralho inteiro. Posso ser um céu noturno, bordado em estrelas e pintado em luas cheias, minguantes, novas e crescentes. Não mais o cosmo. Não mais toda a enciclopédia, a biblioteca, os álbuns de infância no fundo da gaveta, as flores que adornam os jardins dos vizinhos, as rachaduras nas paredes desse lar. Tive medo de apagar a luz, encontrar a linha tênue entre o breu do meu quarto e a noite no recôndito d’alma. Vivi esse tormento por tanto tempo, mas agora há um sussurro me trazendo à superfície. Vou nadar, remar, não abandonar o barco ou cessar com um sopro a chama bruxuleante no chão de chuva. Vou, e me vou com um pouco de você na bagagem. Não muito, porque não posso arriscar ser asfixiada por suas cinzas. E descobrir que o nosso funeral foi efêmero, quando alguém encontrou o terreno baldio e pôs-se a fazer morada ali, aqui. Nos perdemos, te perdi, me perdi. E ouça bem, com toda alma, a tua resposta: eu não quero viver cada segundo da hora, cada dia do mês, fadada a sentir que a tua bagunça me confunde. Fadada a sentir que tua miséria amorosa não me consome. Nunca foi fácil deixá-lo partir, mas a vida precisa de alguma certeza e você nunca me deu certeza de nada.